Nada...um vazio inconstante, que preenche, que dilacera...um silêncio perturbador que toma conta de mim...um estado de não estar, uma forma de não ser, porque o resumo disto é apenas o de que não vens, não estás, não és, e eu , eu tinha tanto para ser, e não posso...
Não permites que seja, tempo, eu tenho tempo, mas a vida não tem...a vida suga-nos e anseia por ser...e esta chuva não te trás, este vento não sopra o teu cheiro...e a tua imagem desvanece-se das paredes deste quarto,
Eu sei que não voltas a ser, não voltarás a viver, sei que tudo se perdeu, sem nunca se ter encontrado, mas também sei que te mostrei o que pode ser aquilo que queremos... aquilo que desejamos...
A realidade não existe, foi criada em cima de finas estacas, que cada vez que o vento passa estremecem, cada vez que uma gota de chuva lhes toca tremem de frio, de cada vez que um floco de neve lhes passa ao lado todo o mundo delas parece ruir...
Sonhos...foi apenas isso que criamos, pois o teu silêncio escreve algo mais, e quando o leio sinto que a estação terminou, sinto que o Outono acabou, e as folhas caíram gentil e ritmadamente como sempre fizeram, viraram de verdes para castanhas, e agora fogem das árvores, como a tua vida foge de mim... e ela nunca esteve em mim...
Guardo tudo numa caixa, um tudo dum nada que nunca chegou a ser, um pedaço de uma não existência...um segundo e pareceram anos, uma palavra e pareceu uma vida... um beijo...
E agora depois das gotas de chuva terem lavado o chão repleto de folhas, depois de entupirem todos os pedaços, todos os recantos em que se alojaram, resta limpar, resta varrer para o lado esses fragmentos, resta limpar tudo...porque nunca poderás colar as folhas nas árvores, nunca poderás ter as mesmas folhas...
Resta esperar que o Inverno passe, que a neve cai por completo, que o manto branco e gélido nos consuma a alma...nos traga o frio do corpo, e nos liberte a alma que há muito adormeceu e perdeu as palavras, perdeu o sentido, perdeu a noção que um dia teria de acordar..
Porque os sonhos não existem...os sonhos são para aqueles que nunca sonharam...são para aqueles que acreditam que a realidade não foi e ainda está para vir...os sonhos não existem...porque não são...porque não lhes podemos tocar... não os podemos cheirar... são como uma vela que se acende, e quando o seu rastilho se consome, nada mais existe, nada ficou...foi uma ilusão que se incendiou...mas a verdade é apenas o facto de que ateas-te um fogo que queima, um fogo que consome... e a vela apaga-se e tu não estás cá para o sentir...
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